Guerreiro Fontes
A sociedade atual enfrenta um dos períodos mais delicados da sua história no que diz respeito a juventude, nomeadamente o aumento da criminalidade juvenil, o consumo de drogas, violências e perda de valores, tem gerado preocupações em diversas famílias e comunidades. No entanto, embora muitas pessoas apontem apenas para existências de vários lugares denominado” boca de fumo”, para influências das ruas ou para facilidade de acesso a drogas, poucos têm coragem de analisar profundamente a origem silenciosa deste problema.
A verdade é que a criminalidade juvenil não nasce apenas na rua, em muitos casos ela começa dentro de casa, através da ausência da direção familiar, da falta de acompanhamento emocional e da perda gradual de valores essenciais na formação dos jovens. Nesta ótica, antes de um jovem ser influenciado pelo ambiente externo, existe quase sempre um vazio interno que não foi preenchido pela família, pela orientação ou pela presença daqueles que deveriam guia-lo. Por isso, torna-se necessário refletir seriamente sobre o papel da família na prevenção da criminalidade e compreender que combater o crime não significa apenas prender ou punir, mas também educar, orientar e formar seres humanos emocionalmente preparados para resistirem às influências destrutivas da sociedade.
Nos últimos anos, tornou-se comum ouvirem pessoas afirmarem que existem muitos lugares denominados ”boca de fumo”, isto é, muitos pontos de vendas de drogas, além disso, demasiada facilidade de acesso a substâncias ilícitas. Sem dúvida, isso representa um problema grave que precisa ser combatido pelas autoridades competentes.
Contudo, limitar o debate apenas a existências desses locais e ignorar uma parte fundamental da realidade, ou seja, a presença das drogas nos bairros, por si só, não determina automaticamente o destino de um jovem. O fator decisivo muitas vezes está na forma como esse jovem foi emocionalmente construído dentro da sua própria casa, sendo certo que um jovem que cresce com acompanhamento, diálogo, limites, valores e presença familiar terá muito mais capacidade emocional para resistir às influências negativas das ruas.
O verdadeiro problema começa quando a família deixa de cumprir o seu papel de orientação, onde muitos jovens atualmente crescem sem acompanhamento paterno, sem disciplina, sem diálogo e sem referências positivas. Alguns pais estão ausentes fisicamente, outros, mesmo presente dentro de casa, encontram-se emocionalmente distante dos filhos. Nesta perspetiva, muitos adolescentes passam a procurar fora de casa aquilo que não encontram dentro de casa: atenção, aceitação, identidade, respeito e sentimento de pertencimento.
É precisamente nesse momento de fragilidade emocional que a rua ganha espaço, tendo em conta a criminalidade, os grupos desviantes e o mundo das drogas oferecem aos jovens uma falsa sensação de poder, proteção e reconhecimento. Muitos jovens não entram inicialmente no crime porque desejam ser criminoso, mas porque procuram preencher vazios emocionais que nunca foram devidamente trabalhadas dentro do ambiente familiar.
Além disso, a sociedade moderna agravou ainda mais esta situação, as redes sociais criaram uma cultura de ostentação, dinheiro fácil e sucesso imediato, levando com que muitos jovens passem a creditar que o valor de uma pessoa depende daquilo que ela possui e não do carácter que construiu. Enquanto isso, o trabalho honesto, a disciplina e o esforço deixaram de ser valorizados por parte da juventude, influenciada por conteúdos superficiais e destrutivos.
Por outro lado, um aspeto preocupante é a ausência de educação emocional dentro das famílias, muitos jovens nunca aprenderam a lidar com frustrações, rejeições, pressões sociais ou dificuldades da vida. Cresceram sem controlo emocional, sem maturidade psicológica e sem capacidade de tomar decisões equilibradas.
Por isso, é importante compreender que o combate à criminalidade juvenil não deve ser feito apenas através da repressão policial, tendo em conta que a polícia combate as consequências, mas a prevenção começa muito antes, dentro das casas, na educação familiar, na presença paterna, na responsabilidade dos pais e na construção emocional dos filhos.
Criar filhos emocionalmente fortes é uma das maiores formas de prevenção criminal, isto é, jovens que recebem amor, orientação, limites e acompanhamento dificilmente serão manipulados pela rua, a família continua a ser o primeiro espaço de formação e carácter de valores e consciência.
Diante da realidade atual, torna -se evidente que a criminalidade juvenil não pode ser analisada apenas como um problema policial ou social, mas também como uma consequência da fragilidade familiar e emocionais que muitos jovens enfrentam diariamente.
A existências de acesso fácil a drogas e influencias negativas, continuará a representar um perigo, mas o verdadeiro desafio esta em preparar emocionalmente os nossos filhos para resistirem a essas tentações.
Mais do que condenar a juventude, é necessário compreender as causas que estão por trás da sua perda da direção, precisamos reconstruir a família, restaurar o sentido de responsabilidade paternal e devolver aos jovens aquilo que muitos perderam ao longo do caminho, nomeadamente: orientação, esperança, propósito e sentido de pertença.
Portanto, muito jovens apenas cresceram sem direção num mundo que lhes oferecem distrações e destruição antes de lhes oferecer amor, presença e consciência.
Enquanto a sociedade continuar a ignorar esta realidade, continuará também a assistir ao crescimento silencioso de uma juventude emocionalmente perdida e vulnerável ao caminho da criminalidade.
