Ivo Santos, o “embaixador” do andebol cabo-verdiano na Alemanha

Considerado um jogador possante com os seus dois metros de altura e quase 100 quilos, Ivo Santos, 34 anos, goza a particularidade de ser, neste momento, o único atleta cabo-verdiano a actuar no campeonato alemão de andebol. Contratado nos últimos anos pelo Bergischer HC, clube onde renovou contrato para a nova época desportiva, este internacional cabo-verdiano tem chamado atenção da imprensa alemã devido a sua presença na Handball-Bundesliga, a maior montra de clubes a nível mundial da modalidade.

“Alguns jornalistas que falam comigo ficam curiosos em saber sobre o andebol em Cabo Verde e como tem sido possível a trajetória da nossa seleção nas provas africanas e no campeonato mundial”, conta o atleta, que ingressou o mundo desportivo alemão há sete anos como andebolista profissional.

Formado em São Vicente, onde foi descoberto pela treinadora Artemisa Ganeto, quando ainda estudava o ensino secundário na escola Jorge Barbosa – tendo depois aprimorado os conhecimentos técnicos orientado por Adelino “Didi” Duarte durante dois anos nas fileiras do Batuque FC -, Ivo Santos viu a sua carreira na modalidade descolar como um foguete. O gatilho foi acionado quando foi convocado pela primeira vez para a seleção nacional júnior que participou numa edição do “Challenge Trophy”. Três anos depois, o jovem partia para Portugal para estudar, onde entrou para as fileiras do Benfica aos 19 anos de idade. Competiu pelo clube das águias no escalão júnior e saltou de seguida para a equipa sénior. Foi, entretanto, emprestado por duas épocas ao Belenenses.

Cessado o acordo com o Benfica, revela o jovem, aceitou uma proposta do técnico Pedro Alvarez para jogar na Áustria durante uma época pelo clube HIB Handball Graz. Na altura, confessa, queria procurar outros voos desportivos e não pretendia renovar o contrato com o Benfica. “Na Áustria não encontrei um andebol em termos competitivos muito diferente da qualidade que havia em Portugal. Se calhar têm, no entanto, outras condições. Mas não posso reclamar daquilo que o Benfica me proporcionou, que foi das melhores condições que já tinha usufruído”, relata Ivo Santos.

Poucos meses após jogar na Áustria, o atleta seguiu para Alemanha, o país onde, segundo opiniões várias, o andebol de clubes é o mais competitivo a nível mundial. Ingressou o plantel do Bergischer HC, emblema onde continua a jogar passados 7 anos, tendo mesmo renovado contrato por mais uma época. “Foi uma ótima decisão ter ido para a Alemanha porque aprendi muito. Dei um grande salto a todos os níveis por causa da qualidade dos campeonatos. As equipas procuram subir de divisão ou manter-se na primeira categoria, logo a competição é muito forte”, realça Ivo Santos, que teve a oportunidade de ingressar a equipa principal do Bergischer e jogar na Bundesliga.

“Muitos especialistas dizem que é a melhor liga do mundo, não sei se confere, mas, na verdade, é um espectáculo desportivo à parte. Os jogos têm um enorme aparato, com tapete para os jogadores, e entramos numa autêntica arena”, ilustra Ivo, que não conhece nenhum outro andebolista cabo-verdiano a competir na Alemanha a nível profissional. Os colegas, alguns da seleção nacional, jogam maioritariamente em Portugal, Espanha e na França.

Orgulho em jogar com as cores de Cabo Verde

Ivo Santos na seleção de Cabo Verde – imagem cedida pelo próprio.

Nos últimos anos, Ivo Santos tem sido figura frequente da seleção de Cabo Verde de andebol, fazendo parte da geração que ganhou a medalha de prata na CAN e conseguiu a qualificação para o Mundial. “É um enorme orgulho fazer parte desta história e, enquanto for honesto com o meu corpo, estarei sempre disponível para jogar pelo meu país”, afirma o atleta, 34 anos, que assume desde logo a sua disponibilidade para responder positivamente a uma eventual convocatória para o Mundial de 2027, que, por coincidência, acontece no mês de janeiro na Alemanha.

Ivo Santos salienta que o seu momento mais marcante na seleção foi quando Cabo Verde disputou a primeira CAN – Copa Africana das Nações. “Ninguém dava nada à nossa equipa, mas conseguimos um honroso quinto lugar. Este resultado foi importante porque pudemos perceber que, afinal, podíamos competir a nível africano”, revela Ivo, para quem a prova disso foi quando a seleção foi medalha de prata na CAN 2022, classificação que deu o acesso ao Mundial. Realça, entretanto, que o primeiro apuramento para o Mundial teve um sabor à parte.

Ivo Santos destaca os feitos alcançados pela sua geração a nível da seleção. Alerta, no entanto, para a necessidade de Cabo Verde assegurar a continuidade desse percurso com o recrutamento de novos talentos. “Boa parte dos atletas, como é o meu caso, já entrou na casa dos trinta. Como é natural, esta geração vai acabar, mas temos de continuar este legado”, argumenta.

O atleta começou a jogar como interior esquerdo no Batuque FC, destacando-se pela sua capacidade de salto e potência nos remates. Em Portugal, Áustria e Alemanha ocupou igualmente essa posição como atacante, mas na seleção acabou por ser adaptado a pivô. “Hoje sou um pivô a nível ofensivo, mas não foi fácil adaptar-me porque nunca tinha jogado nesta posição”, confessa o atleta.

Além de jogar como pivô, Ivo Santos é uma das principais armas defensivas dos “tubarões-azuis”. Com a sua envergadura, aliada à força física, consegue travar os atacantes e dar segurança no sector defensivo. E, como admite, os jogos são ganhos primeiramente na defesa.

O jovem quer continuar a competir enquanto o corpo der resposta. Quando chegar o momento de pendurar a sapatilha, diz, verá qual o caminho profissional a seguir.

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